
Ela se levantou, praticamente ao mesmo tempo no qual batia o sinal do recreio. Carregava um livro. "Para Viver um Grande Amor", de Vinicius de Moraes. Parado na porta com olhar meio perdido estava um garoto. Ela observa o amigo de maneira comum mas concluindo que ele era bem bonito. Diz "oi". Recebe um "oi" de volta. "Pra onde você está indo?" diz a jovem saindo de em frente a porta, onde atrapalhava a passagem. "Não sei", responde o estudante rindo. Ele não sabia explicar que apenas procurava alguém conhecido para aproximar-se e conversar. "Vamos a biblioteca?" Ela sugere, levantado o livro, que segura com a mão direita. "Tabom", disse ele. Os dois foram andando e depois de vários corredores e vãos de escada chegaram ao melhor local da escola para ela, mas pouco frequentado para ele. Não que o garoto bonito não gostasse de ler, mas é que ele só pegava livro de vez em quando, diferente da amiga, quem comparecia a biblioteca toda semana. Deixando-o para trás ela vai direto a estante dos livros de literatura brasileira. Ele vai atrás. Ela pega O Recado do Morro, de Guimarães Rosa. Logo se distrai com os livros de poesia. Ele a observa. Ela estava com os olhos brilhando, tirava vários livros da prateleira e se encantava, parecia uma criança rica na manhã de natal. "Ela é tão diferente", pensa o garoto, retirando da prateleira "Felicidade Clandestina" de Clarice Lispector, mas rapidamente põe de volta com cara de desânimo." Chega mais perto da amiga, olhando para a pagina aberta do livro que ela segurava. Ele silenciosamente lê um verso de Olavo Bilac. Gostou. Aproximando o livro do rapaz ela o ouve sussurrar "vamos sentar". Os dois vestibulandos sentaram-se no chão, pois não havia mais nenhuma mesa vazia. Ela deu o livro a ele, contente e orgulhosa por incentivar uma pessoa a ler mais. Ele pega o livro e começa a ler baixinho. Os dois comentavam os poemas a cada pagina que passavam. O ar estava cheio de sensibilidade e leveza. Ela estava acostumada. Ele não. Nunca se sentira tão sensível. Aquela manhã estava sendo diferente. Ambos perceberam. Ela amava ler ao lado do amigo, a quem sempre tivera grande admiração. Estava feliz. Ele aproveitava cada segundo na companhia tão especial da moça. Sentia-se bem. Os dois tinham uma mesma certeza: aquilo era algo novo, era algo bom. A esperança soava como uma canção, fazendo os dois acreditarem que aquilo um dia poderia dar certo.
Mariana Souza